Técnica ou brincadeira na aula de Balé Infantil?

É muito comum ouvirmos de pais que as crianças naquela tal aula só brincaram. Por outro lado também ouvimos por aí que a criança aprende brincando e que brincar é fundamental. E vemos aquelas crianças geralmente estrangeiras fazendo coreografias dificílimas com alto nível de performance.

Qual será afinal o caminho que faz sentido no Balé infantil? Balé é para brincar ou para treinar?


Primeiras perguntas: qual é o seu objetivo ao lecionar aulas de balé infantil? Em que contexto você está inserido? O que você acredita que é fundamental aprender na iniciação à dança e por quê?

Eu defendo que a dança na infância serve ao desenvolvimento da criança. E que se por acaso aquela criança seguir no balé ótimo, mas não é o meu objetivo que isto aconteça. A dança é uma ferramenta potente no desenvolvimento infantil uma vez que a criança tem no corpo sua principal linguagem expressiva.

E no espaço da aula de dança é fundamental que ela tenha liberdade de criar e de se apropriar de novas possibilidades de movimento.

Acredito que uma aula de dança que encoraja, motiva e fortalece a autoestima é fundamental para todas as crianças e que isso, na aula de balé, acontece junto com o aprendizado da técnica adequado à cada faixa etária.

Dou aula de forma autônoma portanto tenho liberdade de implementar o que acredito no meu planejamento.



Na minha aula, a criança aprende passos de balé, mas ela aprende que o balé é uma forma de dançar e não a única forma. E que o corpo dela e o modo como ela se move é bonito e adequado. Também ensino que o balé é uma dança europeia e que no Brasil temos outras danças igualmente importantes.


Ainda que exista um jeito certo de executar um determinado movimento ensinado pelo professor ou por um amigo da turma, ou por ela mesma, não existe um jeito único de dançar.


E como ensino tudo isso? Através de um plano de curso com objetivos claros.


É quase redundante separar as brincadeiras de movimento da parte técnica da aula de iniciação ao balé uma vez que a técnica é proposta de forma lúdica, quase sempre através de brincadeiras.

Mas sim, há o momento do ensaio, há o momento de copiar uma coreografia, de se colocar em tal ponto do espaço, de fazer o plié de forma correta. Estes momentos que exigem mais concentração devem estar entre atividades mais divertidas para que a turma mantenha um nível razoável de atenção. Lembrando que quanto mais novas as crianças menor o tempo delas de engajamento em atividades tão dirigidas. E que mais vale mudar de planejamento do que se estressar com uma turma de crianças pequenas que não está afim de realizar aquela proposta naquele momento.

Se o professor tem um objetivo e um planejamento claro ele pode mudar a atividade sem mudar o objetivo e em um momento mais propício retomar a proposta que não deu certo.

Exemplo prático: tenho uma coreografia para apresentar daqui a 8 aulas e hoje quero que as crianças aprendam a entrada no palco e onde ficam os seus lugares. Nos seus lugares elas aprenderão a primeira frase da coreografia me copiando. Proponho que cada pequeno grupo se coloque no lado certo da coxia e que entre em cena no skip até o seu lugar.

Só que ninguém está achando essa ideia legal, as crianças não param de falar e se recusam a ir para a coxia.

Eleger um objetivo principal e subdividir a proposta pode ser um caminho. Às vezes o planejamento da aula inclui muito conteúdo e a turma precisa de mais tempo. Uma brincadeira infalível neste tipo de aula é um elemento fundamental para a motivação da turma.

"cada um pega seu sapato e quem eu falar o nome coloca o sapato no seu lugar!"


Pronto, temos o espaço marcado!


Vamos agora brincar de Quem gosta!


Brincadeira do quem gosta:

O professor fala "Quem gosta de tal coisa vai para tal lugar"

Exemplos: sorvete, praia, brinquedo, piscina, brincar com a mamãe- coisas que geralmente as crianças gostam. Jiló, mordida de tubarão, tomar suco de meleca- coisas que geralmente as crianças não gostam.


Definir que quem gosta vai para o seu lugar marcado e quem não gosta vai para a coxia.


Pronto, temos as coxias e os lugares do palco memorizados!


E podemos continuar nessa ou em uma aula seguinte para o skip, que foi o modo de deslocamento escolhido.


Isso é apenas um exemplo, temos muitas possibilidades de brincadeira, o fundamental é a clareza: no fim desta aula os alunos saberão o seu lado da coxia e o seu lugar no palco. E tudo bem se durante a aula você perceber que aquela turma só vai realizar um dos objetivos. Fundamental é que se mantenham motivados, preenchidos de alegria para a tal coreografia que será apresentada.


Conclusão:


Defendo que a dança na infância está a serviço do desenvolvimento da criança e que na aula as atividades devem ser lúdicas e divertidas, seguindo um planejamento consistente.

Acredito que o ensino da técnica no balé infantil ocorre quase sempre através de brincadeiras e que os elementos fundamentais da dança, assim como outros tipos de dança, devem ser experimentados através de brincadeiras de movimento.

E você, acredita em quê?


Para ter uma proposta coerente você precisa ter clareza:

1- dos seus objetivos

2- do contexto em que está inserido

3- do seu posicionamento a respeito da infância

4- do que você está ensinando


Proponho que você faça esse exercício, e se quiser compartilhar fica à vontade.


Espero que este post tenha te ajudado, qualquer dúvida deixa nos comentários que terei prazer em te responder! ;)


Com afeto e alegria,


Manu Berardo


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